O Dogmatismo Funcional

Nas palavras de Plutarco: ‘Nada revela mais o caráter de um homem do que seu modo de se comportar do que quando detém um poder e uma autoridade sobre os outros. Essas duas prerrogativas despertam toda a paixão e revelam todo o vício”.

Ao que parece o pensamento de Plutarco, neste período que estamos atravessando em nossa história, torna-se uma realidade palpável através do comportamento radical daqueles que vivem na e da política. Os embates já não se pautam nas ideias e nos princípios que deveriam nortear o debate entre as diferentes correntes partidárias, centram-se no desejo de demolir o outro, através da agressão verbal, na construção de fatos sem fundamentos, na elevação do tom e na agressão gratuita a tudo que lhes é contrário.

Comportamento este que marca a sociedade atualmente, aonde ser diferente, é estabelecer baluartes em que se vocalizam opiniões, com o objetivo de impor suas ideias, sem estabelecer pontes ao diálogo, sem ampliar os canais de comunicação entre os diferentes pontos de vista, ampliando o esgarçamento do tecido social, criando guetos ideológicos.

Talvez devêssemos forjar o termo dogmatismo funcional, num período em que pensar é raridade, aonde o conhecimento encontra-se no oraculo da rede, tornando-nos presa fácil de modelos preconcebidos. O dogmatismo oferece um caminho sem a angustia da escolha consciente, apresentando esquemas que possibilitam ter uma interpretação da realidade social, dando-lhe um caráter de verdade epistemológica. Tais esquemas induzem o indivíduo a interpretá-los como realidade absoluta condicionando seu comportamento social.

Diariamente somos jogados a esquerda e a direita, aonde cada qual tem o monopólio da verdade, sem darmo-nos conta que ambos são lados opostos da mesma moeda. Necessário faz-se entender como foi possível, perdermos a essência do que sejam os princípios da direita e da esquerda e, para embaralhar a situação reinante, temos também o monopólio da verdade do centro.

Há uma epidemia de dogmatismo funcional, a explicar o momento em que vivemos, interpretando os fatos com as suas nuances monocromáticas que em nada auxiliam o debate pluralista, o surgimento de novas ideias para a construção do consenso social.

Uma das explicações possíveis reside no fato de que tais comportamentos originam-se no seu enraizamento com o passado, tendo como consequência, a defesa da sua área de conforto, isto é, manter-se fiel aos seus dogmas, aonde encontra respaldo no conhecimento oferecido, exercendo deste modo a ortodoxia, tornando seus dogmas verdades pétreas, intransigentes.

Outra causa possível, está no processo de mudança econômica e social, a demandar novas competências da sociedade humana, a de reflexão sobre as inúmeras variáveis que afetam o comportamento dos indivíduos e, a competência em elaborar e implementar respostas que possam atender expectativas crescentes, divergentes e antagônicas.

Retornando ao titulo deste texto, acredito que são poucos os que estão aptos a atender as novas necessidades que se apresentam, em todos os níveis da sociedade mundial.

Restringindo o foco ao nosso dia a dia, creio que a sociedade tenha a árdua tarefa de separar o joio do trigo, diariamente nos defrontamos com uma cortina de fumaça, uma serração ideológica, resultante de uma retorica inflamada revestida de indignação, buscando demonizar os que pensam de modo contrário a esta ou àquela ideologia.

A sociedade precisa dar um basta a estas ações que em nada auxiliam o processo de desenvolvimento social e econômico, ações estas que cerceiam o surgimento de uma racionalidade critica, a nossa participação democrática faz-se necessária, através do amplo debate das ideias, sem verborreia inflamatória, a arma preferida destes seres ortodoxos, revestidos de dogmas ultrapassados, arautos de velhas verdades para solucionar problemas novos.