A intransigência, o meio termo e o bom senso

É inegável que a sociedade humana se encontra distribuída de forma assimétrica em nosso planeta e que esta assimetria reflete as diferenças, às vezes abissais, entre as nações, as classes sociais em cada país, na distribuição da renda e na concentração do capital.

Outra assimetria vem chamando a atenção à algum tempo, as diferenças das narrativas ideologizadas. Estas revestidas de um monocromático discurso ampliam o distanciamento do diálogo, transformando-se em um debate de surdos, ou melhor, em uma arena aonde só pode haver uma única verdade.

Chega a ser hilária não fosse trágica, a verborreia que inunda os canais mediáticos, reforçando imagens dantescas, daqueles que deveriam ampliar as pontes, entre a diversidade ideológica, através do diálogo, expandindo o debate, abrindo novos horizontes.

Este problema já foi apontado em palestra no TED proferida pela escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, “ O perigo da história única”, no ano de 2009, versando sobre as consequências advindas da minimização e da uniformização da narrativa, buscando explicar situações complexas, através de um único ponto de vista.

O que estamos vivenciando hoje em nossa sociedade é o mesmo fenômeno apontado, isto é, a intransigência da ideologia, barrando o diálogo, cingindo a situação de cores únicas, impossibilitando o surgimento de um espectro de nuanças sobre o mesmo tema.

Outro ponto que gostaria de abordar é o aparente sumiço do meio termo, se é que podemos denominar o meio como ponto de equilíbrio entre situações dispares. Creio que não há meio termo, haverá sempre um novo olhar, um acordo sobre a solução encontrada, não sendo necessariamente o meio, porem será um novo olhar, a apontar caminhos, caminhos estes compartilhados pelas partes.

O termo que considero correto é bom senso, ai está algo que faz tempo não conseguimos observar nas relações humanas. O significado de bom senso segundo o dicionário Aurélio: 1) Faculdade de discernir sobre o verdadeiro e o falso. 2) Aplicação correta da razão para julgar ou raciocinar em cada caso particular da vida. 3) Capacidade de julgar e de resolver problemas conforme o senso comum.

A nossa historia demonstra que a longa jornada da humanidade foi empreendida através de pequenos passos, rumo a um futuro incerto, repleto de sonhos, fantasias e medos, a impulsionarem a alma humana rumo ao desconhecido. Passos que marcaram indelevelmente a nossa trajetória no planeta, não somente com os fragmentos de sua engenhosidade, dos seus traços marcantes das diversas culturas, mas também com o desenvolvimento contínuo dos saberes, degraus da nossa escada evolutiva.

É inegável que tal patrimônio deveria pertencer a humanidade, nada creio eu, absolutamente nada em nossa história teve uma geração espontânea, algo mágico que tenha preterido o trabalho do homem para a sua construção. Sendo assim somos o sujeito destas construções e reconstruções, ao longo do tempo, e como consequência é o homem do nosso tempo, a resultante passageira deste processo.

O que poderia explicar esta imensa assimetria na sua visão de mundo? A ausência de um senso comum, apesar das suas similaridades, tais visões de mundo apresentam abismos no entendimento de qual seja a mais válida (ungida por uma entidade suprema), a ser compartilhada (aceita) por todos.

Podemos dizer que a nossa humanidade se encontra em diferentes níveis nesta longa escada histórica, que uma visão de mundo preponderante impinge as demais a sua verdade, que há uma diferenciação entre ser mais ou menos humano, ou melhor, de termos mais ou menos direito ao nosso quinhão neste tempo e espaço, a eterna luta do homem, predador de sua própria espécie.

Tornar o patrimônio da humanidade um ponto comum, isto é, compartilhar a sua importância não como visão parcial, mas como uma visão da nossa evolução, no tempo e no espaço, deveria ser a questão central das políticas educacionais.

Desta forma, todas as expressões culturais fariam parte deste acervo humano, uma reserva de saberes. Ao nos apropriarmos destes conhecimentos na construção e reconstrução das realidades sociais, estaremos compartilhando e não impingindo uma visão de mundo, a partir do consenso gerado no debate e não no confronto das ideias.

Hoje (2016) mais do que nunca em nossa história (Brasil), nos defrontamos com este embate de visões, visões estas demonstradas através de comportamentos reveladores da alma humana, enfatizando o denominador comum que permeia a razão da sua existência, o eu, como objeto principal.

O coletivo, em nenhum momento foi abordado, sequer foi mencionado, não há por parte da grande maioria, o mínimo de respeito à sociedade, esta, cada vez mais exposta e indefesa contra os saberes que se voltam contra si, no domínio de suas vontades, sonhos e necessidades.

Ampliando o cenário, o que aqui ocorre esta a ocorrer em diversas regiões do planeta, Oriente Médio, África, Ásia, América Latina, Leste Europeu, Europa, novamente a explicar a similaridade da nossa humanidade e, como causa de tantos males, as assimetrias ideológicas.

Torna-se evidente a necessidade de ampliarmos através do processo educacional, a formação universal humanista, compartilhando os saberes que a todos pertencem, livres de ideologias sectárias e excludentes. O objetivo é o de construir um caminho, não o caminho do meio, mas sim o do consenso, a indicar um norte, aonde convergiria a diversidade humana, na busca de um amanhã, um amanhã intolerante com as intolerâncias que não respeitam a nossa humanidade.